terça-feira, 30 de agosto de 2016

Ganhar a Vida é aprender a perder

GANHAR A VIDA É APRENDER A PERDER


Pai,perdi a roda do meu carro.....
O pai, estava de saída para o trabalho como todos os dias, e dá-se com a tristeza do seu filho. Com os olhos lacrimosos, de  joelhos no chão, e com pouca esperança, procura sobre a mesa a roda do seu brinquedo de plástico chinês, o homem estremece sobre as pernas.
De repente, nada mais faz sentido. As crises económicas, a violência urbana, as guerras civis, a ameaça da inflação, as taxas de juros. Nada pode ser mais importante que procurar a roda perdida. Parem o mundo! Chamem a SWAT, o Serviço Secreto, a Legião Estrangeira. Tem um carro partido a entupir  o trânsito da vida.
Um minuto antes, o menino acelerava seu veículo voador sobre a terra grandiosa dos homens, saltava abismos intransponíveis, flutuava sobre estradas infinitas e amansava a velocidade dolorosa do universo até fazê-lo girar em câmara lenta, preenchendo de sonho o vazio concreto do mundo. Agora, tudo se reduz à frustração da perda e à procura objectiva do que se perdeu.
O pai aborta o facto de ter que sair e entra na busca implacável ao lado de seu filho. Arrasta o sofá, levanta cadeiras, se enfia sob a mesa. Sem um único sinal da roda perdida. Então, submerso em sua expedição doméstica, pensa em contar ao filho sobre as tantas coisas que ele ainda haverá de perder. Porque, como todos os seres que caminham sobre a terra, seu menino também há de deixar muito mais coisas do que será capaz de lembrar. Ao farejar , como um cão de caça o chão da casa, o pai se perde em uma corrente violenta de pensamentos sobre o quanto já perdeu.
Desde os primeiros brinquedos desaparecidos na terra do quintal e os bonecos engolidos pelos cantos das almofadas do sofá, ele relembra as perdas da vida inteira. Pensa em cada lugar esquecido, revisita planos abandonados, acena para amores passados, recorda  amigos perdidos. E de novo percebe que, não ganhou muito, mas um homem se constrói a partir das perdas.
Perde tempo e perde a hipótese . Perde a força, a saúde, a sanidade. Perde a vergonha, os ímpetos e os pudores. Perde o dinheiro, a paciência, o caminho de volta para casa, perde a conta, a vez, a linha e o fio da meada. Perde o jeito, a mão e a classe. Perde amigos e parentes. Perde peso e perde amores. Perde, enfim, as rodas de seus carrinhos pela vida.
Ali, ao lado do seu filho, o homem se dá conta de que só não perdeu uma única coisa: o medo que o acompanha desde sempre. Ele tem medo. Como tantas outras vezes, o homem tem muito medo de perder barato o que lhe é mais caro.
Então, o menino interrompe sua busca sem mais o quê. “Pai,pronto. Perdi a roda do meu carrinho para sempre.”
Pronto. O filho aprendeu a lição. O pai já pode voltar ao trabalho. O trânsito da vida retoma seu fluxo.
Essa noite, cada um em sua cama, pai e filho vão perder o sono pensando na aventura da tarde, pouco antes de reencontrá-lo entre um canto e outro da casa, dormir profundamente e perder a hora de acordar na manhã seguinte. Assim eles caminham pela vida. Perdendo e ganhando.

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